A acusação é sempre a mesma, e é justa. A matriz produz listas longas que ninguém prioriza. As entradas são palavras soltas, sem dado por trás, que ninguém verifica. E o resultado quase nunca reaparece nas etapas seguintes da estratégia. Isso foi documentado por Hill e Westbrook em 1997, num artigo que pedia literalmente o recall da ferramenta, depois de examinarem cinquenta empresas. Quase trinta anos depois, quem mede continua encontrando a mesma coisa.

A conclusão que se tira disso costuma ser: a SWOT envelheceu.

Não envelheceu. Foi amputada. E o que lhe tiraram tem nome, data e autor.

O que existia antes do quadrante

A reconstituição histórica é recente. Puyt e colegas publicaram em 2023, na Long Range Planning — a mesma revista do artigo do recall —, um trabalho de arquivo que refaz a origem da ferramenta. A base empírica começa em 1952, no departamento de planejamento da Lockheed. Robert Franklin Stewart, um dos pioneiros, assume em 1962 o grupo de Teoria e Prática do Planejamento no Stanford Research Institute. Em 1965, publica a abordagem SOFT.

SOFT não era um quadro. Era uma sequência de passos — uma cadeia de raciocínio, na expressão dele — para a empresa chegar aos próprios propósitos.

O procedimento importa mais que o acrônimo. Primeiro, recolhiam-se os valores das partes interessadas. Depois, e este é o ponto, cada gestor examinava as suas próprias atividades e respondia a quatro coisas: o que precisa ser feito para preservar o que já opera de forma satisfatória; como abrir a porta para as oportunidades; como corrigir a causa das falhas; como afastar as ameaças ao que virá.

Cada gestor escrevia de oito a dez questões de planejamento da própria unidade. Subgrupos conversavam sobre essas questões, com a instrução de incluir as necessidades e expectativas de todos os interessados. As resoluções que saíam dessas conversas subiam como insumo para o comitê executivo formular os propósitos e as estratégias da corporação.

Leia de novo o desenho. Não há ninguém preenchendo caixas sobre a empresa vista de fora. Há gestores respondendo sobre o próprio terreno, conversando entre si, e um encaminhamento que liga o que foi dito à decisão que vem depois.

Duas amputações e uma prótese

A primeira amputação foi de vocabulário, e não tem autor conhecido. O próprio Humphrey, ao descrever a SOFT décadas depois, registra que aquilo virou SWOT e encerra o assunto com um "não pergunte". Os historiadores que reconstituíram a origem tratam a troca como simples rebatismo: ninguém sabe quem, ninguém sabe quando. Mas todos sabem o quê — e o quê é o que importa.

Duas palavras foram substituídas, e na mesma direção. Fault — falha, com causa a corrigir — virou Weakness, fraqueza. E Satisfactory — o que está operando bem agora — virou Strength, força. Parece detalhe de tradução. Não é. Falha é algo que acontece e tem origem; fraqueza é algo que a empresa é. Satisfatório é um estado que se verifica hoje e pode deixar de valer amanhã; força é uma qualidade que se possui. Nos dois polos, o positivo e o negativo, saiu a mesma coisa: o tempo e a causa. Entrou o atributo. Stewart, aliás, nunca aderiu — satisfatório e insatisfatório seguiram nos escritos dele até o fim. A troca aconteceu em volta do autor, não por ele. E, no mesmo movimento, o instrumento passou a circular sozinho, fora do processo que o continha.

Em 1982 veio Weihrich — e aqui é preciso ser justo, porque a justiça afia o argumento. A matriz dele não removeu o degrau seguinte; foi a tentativa de repô-lo. Os cruzamentos entre fatores internos e externos existem exatamente para produzir estratégias: força com oportunidade, fraqueza com ameaça. Weihrich viu o membro faltando e encaixou uma prótese.

Só que a prótese era mecânica. Onde havia conversa entre funções subindo para quem formula, entrou cruzamento de adjetivos feito por um analista. O degrau voltou herdando as duas perdas anteriores: sem o gestor que responde pelo próprio terreno, sem a causa por trás da entrada. Estratégia derivada de atributo, formulada por quem não opera — anda no papel, não anda na empresa. A matriz, aliás, saiu na mesma revista: a Long Range Planning publicou a prótese em 1982, o recall quinze anos depois — e a autópsia, quarenta e um.

A segunda amputação foi pedagógica, e é anterior à prótese: os MBAs dos anos 1980 nunca chegaram a pegá-la. O que se ensinou — e o que se espalhou pelo mundo — foi a caixa de exibição de quatro células que já circulava solta desde o fim dos anos 1960, sem o cruzamento, sem estratégia nenhuma saindo dela. Weihrich propôs o conserto e o ensino de massa seguiu sem ele. O grupo original de Stanford havia formado mais de mil executivos entre 1965 e 1971 no método completo. O que virou universal é menos que o Weihrich, que já era menos que o Stewart.

Puyt registra o saldo sem rodeios: as ideias de Stewart sobre definição participativa de propósito desapareceram da memória coletiva.

O que se perdeu tinha três partes

Vale nomear o que caiu fora, porque é exatamente isso que a crítica de 1997 encontrou faltando.

Quem responde. No original, cada gestor falava do que operava. Na matriz, alguém — um analista, um consultor, hoje um modelo de linguagem — preenche as quatro caixas sobre a organização. O sujeito da frase mudou, e ninguém reparou.

A partir de quê. No original, a pergunta era sobre a própria atividade, e sobre causa: corrigir a origem da falha, não registrar o defeito. Na matriz, o que se pede é atributo — o que somos de bom, o que somos de ruim. Verbo virou adjetivo.

O que se faz depois. No original havia um encaminhamento explícito: as conversas produziam resoluções, e as resoluções subiam para quem formulava. Na versão que se universalizou não há degrau nenhum; na de Weihrich havia, mas era degrau de máquina — estratégia gerada por combinação de atributos, sem sujeito e sem causa. Por isso Hill e Westbrook encontraram o que encontraram — os resultados não eram usados adiante porque, na prática que se espalhou, não havia mais adiante nenhum para onde ir.

A SWOT não falha por ser simples demais. Falha porque lhe removeram a articulação, e o que sobrou foi a parte que aparece bem em slide.

Força para quem?

Há uma pergunta que desfaz o quadrante em quatro palavras, e ela não precisa de teoria para funcionar. Basta fazê-la numa sala com as áreas presentes.

Estoque alto: força ou fraqueza?

Para a área comercial, é atendimento imediato, prazo curto, venda que não escapa. Para a financeira, é capital parado, custo de carregamento, risco de obsolescência. As duas leituras são corretas. As duas decorrem de como cada função significa o mesmo objeto. Nenhuma das duas é o erro da outra.

E, no entanto, o quadro pede uma resposta só.

O que a matriz faz, nesse instante, não é analisar. É arbitrar — em silêncio, sem que ninguém perceba que houve arbitragem, e normalmente a favor de quem estava com a caneta. As outras leituras não são refutadas. São apagadas.

Há duas saídas aparentes, e nenhuma resolve.

A primeira é registrar o estoque nas duas caixas. Não compõe nada — justapõe. A arbitragem não desaparece; é adiada para a etapa em que alguém decide qual das duas entradas conta.

A segunda é a que os manuais de fato recomendam, e é mais interessante porque ninguém a percebe como arbitragem: seja mais específico. Item que cabe nas duas caixas está descrito de forma ampla demais — reescreva. "Estoque alto" vira "capital de giro parado acima da média do setor", e agora só há um lugar possível. A literatura reconhece abertamente que fatores internos aparecem como força e fraqueza ao mesmo tempo, e prescreve como remédio a definição precisa, tendo o concorrente como critério de desempate.

Forças
Estoque alto comercial
Fraquezas
Capital de giro parado acima da média do setor
Oportunidades
Ameaças
Os dois tinham razão. Reescreveram até caber num lugar só.

Repare no que aconteceu. A leitura do comercial não foi refutada nem apagada por decreto: foi tratada como imprecisão de redação. E o critério que decide a reescrita é externo — um benchmark de mercado arbitrando uma divergência interna que ele não conhece. A valência dupla não era imprecisão. Era a informação.

E essa segunda saída tem uma irmã gêmea, um nível acima. Quando o desacordo não é entre entradas mas entre pessoas — o comercial vê uma coisa, o financeiro vê outra —, o remédio prescrito é o mesmo: mais dado, mais critério objetivo, pesos atribuídos a cada fator, até que as leituras convirjam e a divergência desapareça do quadro. Trata-se a discordância como problema de subjetividade, quando ela é o único lugar onde a empresa estava dizendo alguma coisa sobre si mesma.

E há registro disso, de dentro da própria literatura fundadora. Em 1976, Howard Stevenson pediu a cinquenta gestores de seis grandes empresas que avaliassem as forças e fraquezas das próprias firmas. Não encontrou consenso — encontrou pouca concordância. E encontrou algo mais importante que a discordância em si: ela seguia a posição de quem respondia. A alta gestão se preocupava com pessoas; a média, com questões técnicas. Não era ruído de opinião. Era o posto de observação de cada um falando. Nenhum peso e nenhum critério objetivo fazem convergir leituras que divergem porque os terrenos divergem. O estudo é de seis anos antes da prótese.

Em todos os casos, o que sai do quadro é o mesmo, e é aquilo de que a decisão precisa: direção.

Ameaça para quem?

A pergunta tem uma irmã do lado de fora do quadro, e ela é menos evidente porque o externo parece existir por conta própria.

Um concorrente novo entra na região. Uma matéria-prima escasseia. Uma regra muda. Nada disso é oportunidade ou ameaça em si mesmo. É oportunidade para quem escolheu competir de um jeito, ameaça para quem escolheu competir de outro e, para uma terceira empresa, não é nada — apenas algo que aconteceu. A valência do externo não está no externo. Está na escolha interna que ele encontra.

É o que diz a frase mais citada da estratégia, e quase ninguém a lê na ordem em que foi escrita. Conhecer o oponente e a si mesmo garante o resultado de cem batalhas; conhecer a si mesmo sem conhecer o oponente divide as chances ao meio; não conhecer nenhum dos dois perde sempre. Repare no caso que sequer aparece na lista: conhecer o oponente sem conhecer a si. O autoconhecimento não é parcela: é fator. Se fosse soma, saber do oponente somaria alguma coisa por conta própria e o caso ausente valeria metade. Sendo produto, o zero interno zera tudo — por mais que se saiba do outro. Vale ficar com a estrutura sem herdar a moldura: nem todo externo é inimigo. Inimigo é o que se correlaciona com uma escolha interna. O resto é só algo.

E aqui aparece uma perda que não estava na lista das três, porque não é de conteúdo — é de hierarquia. No original, o gestor partia da própria atividade e perguntava o que ameaçava o que viria: ameaça derivada de propósito. Quatro caixas de igual peso, lado a lado, converteram uma dependência em simetria. Passou a ser possível preencher Oportunidades e Ameaças sem âncora interna nenhuma, listando o ambiente como se ele significasse algo sozinho. É o que se faz na maioria das salas — e é por isso que os dois quadrantes de fora costumam sair idênticos aos de qualquer concorrente do mesmo setor. Descrevem o mundo. Não descrevem a relação entre o mundo e aquela empresa.

O quadrante tem valência; não tem direção

Aqui a objeção deixa de ser prática e passa a ser estrutural.

Os quadrantes são valências: dois positivos, dois negativos. Bom interno, ruim interno, bom externo, ruim externo. Valência não é direção. E estratégia, como sustento no Capítulo 10, não é plano imposto sobre a organização — é vetor resultante, direção que emerge da combinação de forças legítimas, inclusive opostas, em que cada decisão, cada crença, cada tensão e cada silêncio operam como vetor local.

Um vetor tem direção, sentido e intensidade. Um quadrante tem sinal. Não existe operação que componha sinais e produza direção. É por isso que quatro caixas não comportam uma resultante — não por falta de rigor de quem as preenche, mas por falta de dimensão no instrumento.

E a consequência é a que já está no Capítulo 12: quando duas áreas leem o mesmo objeto em sentidos contrários, isso não é impasse a ser dividido no meio. É diagnóstico. Indica que se está intervindo no nível errado, e aponta para o pressuposto que, verbalizado, faz o conflito deixar de ser necessário. Stewart estava perto disso em 1965, quando mandava corrigir a causa da falha em vez de anotar a falha.

Não é modernizar. É devolver

Existe hoje um mercado de ferramentas que preenchem os quatro quadrantes automaticamente. Elas fazem, em segundos, exatamente a operação que a literatura vem criticando desde 1997 — e a fazem melhor, mais rápido e mais barato do que qualquer analista. Automatizar um instrumento amputado devolve o defeito na velocidade da luz.

A alternativa não é inventar substituto. É restituir as três partes que foram retiradas.

Devolver quem responde: quem fala é a função, sobre o próprio terreno, não um observador que descreve a empresa de fora.

Devolver a partir de quê: a pergunta volta a ser sobre atividade e causa, e por isso volta a ser verbo.

Devolver o que se faz depois: as leituras divergentes não são consolidadas numa média, que é o gesto que apaga o dado. A divergência é o dado. O que se encaminha adiante é a direção que se compõe a partir dela — não a caixa mais votada.

Curiosamente, é o que os próprios historiadores da ferramenta sugerem. Puyt e colegas encerram o artigo propondo que meios digitais sejam aplicados justamente à parte participativa e de longo prazo do processo original — não ao preenchimento, à conversa. A recomendação está publicada há três anos, numa revista de estratégia, e quase ninguém a seguiu.

Sessenta anos depois

A SWOT sobrevive a todas as críticas por um motivo que os críticos raramente admitem: as quatro perguntas são boas. Elas continuam sendo boas.

O que não sobreviveu foi o resto — a conversa que as respondia, a causa que elas procuravam, o encaminhamento que as levava a algum lugar. O que ficou foi a moldura, e é a moldura que decepciona.

Quem hoje diz que a SWOT está superada está certo sobre a caixa e errado sobre a ferramenta. Está criticando um corte dos anos 1980 achando que critica um método de 1965.

Devolver não é nostalgia. É reconhecer que o instrumento nunca esteve errado — estava incompleto desde que o tornaram portátil.

A SWOT não envelheceu. Ela foi reduzida ao que cabia num slide, e sessenta anos de crítica confundiram o corte com a coisa cortada.

Fundações na trilogia: Livro 1 · Cap. 10Método Confluência e IAConfluência · Livro 1 · Cap. 12Educação para Agir Sistêmico

Referências históricas: Puyt, R. W.; Lie, F. B.; Wilderom, C. P. M. The origins of SWOT analysis. Long Range Planning, 2023. · From SOFT approach to SWOT analysis, a historical reconstruction. Journal of Management History, 2025. · Stevenson, H. H. Defining Corporate Strengths and Weaknesses. Sloan Management Review, 1976. · Weihrich, H. The TOWS Matrix — A Tool for Situational Analysis. Long Range Planning, 1982. · Hill, T.; Westbrook, R. SWOT Analysis: It's Time for a Product Recall. Long Range Planning, 1997.

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